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Mudaram as estações e os cabelos

  • Foto do escritor: Julia Costa
    Julia Costa
  • 5 de out. de 2021
  • 4 min de leitura

Atualizado: 6 de dez. de 2021

Meu sonho é entrar no salão, sentar na cadeira de corte, me olhar no espelho, me sentir no auge da desconstrução e do desapego e mandar um:

- Raspa Elis Regina!

Esse dia há de chegar, mas enquanto isso eu vou treinando com umas tesouradas ousadas.


Eu sempre fui uma enrolada digo, tive cabelos enrolados. Mas quando era adolescente começou a ditadura do liso, não tinha essa representatividade do crespo, do enrolado de hoje em dia. Pensa comigo: você é um criança/adolescente em fase de formação de caráter/personalidade e vê que todas suas amigas, as atrizes famosas, sua família estão alisando o cabelo, o que você faz? Vira lisa também. Nessas horas até minha mãe, que disse que eu não era igual a todo mundo, tava virando lisa.. Quem poderia me salvar?


Lembro da primeira vez que fui a um salão alisar meu cabelo. Eu nunca tive paciência pra salão de beleza e do nada lá estava eu, passando 5h sentada, com uma toalha molhada nos olhos porque eles estavam lacrimejando daquele vapor tóxico do formol. Na minha cabeça aquilo era pior que fumar, penetrava pelo meu nariz e chegava derretendo meus pulmões, se entranhava pela minha pele me corroendo ˜drama queen˜. O pensamento era que eu estava ficando bonita mas minha expectativa de vida tinha reduzido uns 5 anos. Tava tudo bem.. eu achava que ia viver 100 anos naquela época, logo, viver 95 tava de bom tamanho se fosse pra ser "mais gata".


E nessa foram anos, anos e anos nesse processo, era sempre um sofrimento agendar salão pra retocar a raiz. Mas começava a bater o desespero quando ela tava grande, 5 dedos de raiz não dava pra se usar mais nem o cabelo solto porque virava um "cabelo capacete".


Não sei dizer exatamente quanto tempo faz, mas vamos colocar ai uns 4 anos. O cenário já era da representatividade dos cachos, Camila Pitanga, Juliana Paz, Bruna Linzmeyer, tantas famosas assumindo. E mais importante, minhas amigas: a Bárbara e a Carlinha da endoscopia tinham passado por transição capilar recente, vulgo deixar a tão temida raiz crescer por um tempo e depois passar a tesoura em todo aquele cabelo que parecia uma vassoura de palha pra deixar o novo brotar, tipo uma poda de árvore velha mesmo, tem que tirar os galhos e folhas secas pra ela florescer. A Carlinha chegou pra mim um dia e falou: "Amiga esse seu cabelo não faz nenhum sentido, não combina com você, olha pra você, nem liga pra isso, você vai ficar mais autêntica ainda e linda assumindo seus cachos" é dessas amizades que eu to falando gente <3! Foi ela acabar a frase e eu pegar o telefone e ter corte agendado com a Fabiana Lourenço no outro dia. A Fabiana é uma profissional incrível, eu me apaixonei de cara, ela marca uma entrevista, te pergunta o que aquilo tá significando pra ti, quais as tuas expectativas, é surreal. No salão dela só tem gente cacheada maravilhosa, as criancinhas correndo, todas enroladinhas e vendo que é normal ter cabelo assim, que sonho. Foi meu primeiro Long Bob enrolado, sim eu aprendi o nome de todos os cortes, no meu entendimento Long Bob é tipo um Chanel um pouco mais longo e no meu caso, enrolado. Passei um tempo no tal do Long Bob.



Passaram uns 2 anos, eu estava lendo a biografia da Elis na época, lembro que me bateu uma super curiosidade de entender o motivo dela ter raspado o cabelo, era o Furacão Elis gente, não podia ter cortado só por cortar, eu queria ir fundo naquela história. Foi então que descobri que aquele cabelo carregava a representatividade da onda unissex da época, que recentemente tinha voltado com o movimento genderless.. Era a prova da liberdade e do fim dos estereótipos. Pra cortar curto tem que ter segurança, aceitar e amar o que vê quando se olha no espelho, muito além de um cabelo. Bingo, genial! Se encaixou em umas mudanças que eu estava passando na época, tinha acabado de nascer o Furacão Júlia e eu marquei Fabiana Lourenço de novo, decidida.

Cheguei lá: "Fabi vim cortar Elis, bem raspado". A Fabi quase caiu pra trás, meus cachos estavam mais lindos e definidos do que nunca, ela falou que não cortava nem a pau. Depois de muita brisa, quebração de pau, chegamos a um acordo de um Joãozinho. Hoje eu agradeço a Fabi, ficou muito lindo, e a minha cara.




Eu parei de ir na Fabi e comecei a cortar em um barbeiro do lado de casa, mas guardo ela com muito carinho no meu coração. Na barbearia aqui do lado é muito prático, eles acham o máximo quando eu chego, aprenderam com erros e acertos a cortar meu cabelo e fica incrível!


Hoje eu olho pro espelho e me sinto muito representada pelo conjunto do que eu vejo, pelo meu cabelo, pelas minhas roupas, por tudo que penduro em mim, como espelho do que vejo dentro. Apesar da nossa casa e da nossa carne não nos definirem (você é seu próprio lar, nossa passo mal com essa música, Francisco El hombre, ouçam!), andar com o dentro e o fora alinhados me traz paz. Meu conceito de beleza também mudou um tanto, mas isso dá pano pra manga e a gente fala mais adiante. Esse corte não é definitivo, longe disso, e nem quero que seja. Quem sabe daqui um pouco eu raspo ou deixo ele crescer de novo. Deixa o tempo, os caminhos e as tesouras dizerem as vontades deles, desde que partilhadas com as minhas.

Cortei meu cabelo hoje.








 
 
 

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