top of page

Sonhos de criança

  • Foto do escritor: Julia Costa
    Julia Costa
  • há 17 horas
  • 4 min de leitura

Nesses últimos dias, meus pais foram visitar Itamaracá, a cidade onde veraneei meus janeiros desde que nasci. Meus dias, por esse contato com eles, foi tomado de maresia, saudades e boas lembranças.

Nesses últimos tempos, uma das maiores reflexões tem sido decifrar quais os meus reais sonhos de realização na vida. Na minha caminhada me perdi muito nesse caminho por roteiros esperados, sonhos que eram de outras pessoas que abracei como meus. Mas esse final de semana aquela criança que veraneou em Itamaracá sussurou lembranças ao meu ouvido e eu estava em silêncio o suficiente pra ouvir, sussuro é difícil de decifrar com ruído, são como grilos os que cantam baixinho aqui perto de mim.

Lembro de uma frase da minha avó que se tornou quase um jargão da família: "Que todos os meses fossem Janeiro", vovó Nívea é uma grande anfitriã, adora a família reunida, e para ela, esse lugar mágico que construímos juntos, é o que a sustenta nos outros meses no ano. Ao final das férias, após as despedidas de abraços e choros de amor, aguarda saudosa a chegada do próximo Janeiro.

Itamaracá tem cheiro de mar, tem a pedra do anel, tem a ciranda de Lia, tem primo que nem tem galinha na roça, almoço junto na mesa grande regados pelo amor de Toinha, serestas, tem as músicas favoritas das serestas, cada uma trazendo uma lembrança de uma familiar querido, ou de um momento partilhado junto, "Madeira do Rosarinho" é um clássico, e desde que meu avô Cícero encantou, "Naquela mesa tá faltando ele" nos enche de lágrimas e de saudades, ele adorava mesmo antes de virar um pássaro, nos ensinou os passos de como tê-lo por perto quando o peito apertasse.

Eu aprendi a me construir nas areias de Itamaracá, com os castelos gigantes, maiores que nós mesmos na época, que meu pai Cícero se dedicava horas a fazer conosco, eram quase sempre protegidos por um fosso ao redor, e enfeitados com pinguinhos de água e areia que davam aquele efeito de uma pedra em cima da outra em equilíbrio. Duravam exatamente o tempo da maré encher e nos mostrar que não tem fosso que resista às forças do mar, e pensando agora, que grande aprendizado que esses castelos trouxeram. A gente aprende umas coisas quando é criança brincando que só vai entender depois na vida.

Conseguíamos ter a sorte de ver algumas tartarugas virem à terra para desovar e também o azar de presenciar algumas que vieram à terra feridas. Ah as tartarugas, elas respiram 2 vezes por minuto apenas, e são um dos seres mais longevos. Lembrar das tartarugas de Itamaracá me traz paz, e a certeza de que viver com paciência nos leva mais longe, a respiração das tartarugas é o oposto complementar perfeito das respirações angustiadas da ansiedade.

Excursões, essa era uma das coisas que a família mais gostava de inventar, aliás inventar é algo que a minha família faz muito bem, sinto que todos ali tem um mundo interno muito rico e lembranças vívidas de sonhos de criança. E não pensem que era grande coisa não, ou pensando bem, talvez não ser uma grande coisa fosse exatamente a grande coisa, ou o "Graaaaande passeio" que minha avó costumava dizer como brincadeira. Era excursão à Ilha que se formava na maré seca, excursão à Coroa do avião, ao parquinho do pilar que tinha sempre aquelas mesmas atrações e brinquedos cada vez mais decadentes, uma vez metemos minha avó na Barca conosco, essa me fez até rir, como fizemos isso? Cade o juízo? Como ela diria.

Aliás falando em vovó dizer, uma das grandes atrações das férias eram as contações de história, vovó e Ainha são as guardiãs do tempo, e nosso livro vivo de cada peripécia que vivemos quando pequenos, em Itamaracá eu sempre serei aquela Julinha levada demais, por mais velha que me torne. Me veio uma enorme sensação de liberdade agora, que coisa boa poder ser sempre criança em algum lugar, ou na memória de alguém.

Itamaracá também foi meu primeiro contato com a desistória da colonização, caminhávamos nas manhãs até o forte Orange, ocupação Holandesa, e mal sabia o árduo caminho de volta que acompanharia minha vida.

O que mais gosto no mar é ver o trilho que o sol desenha nele, tenho a impressão que se o seguir chegarei aonde precisar nessa vida.


Itamaracá como diria Lia, é uma ciranda de todos nós.

Como diria minha avó, que todos os meses fossem Janeiro.

E como diria minha mãe Marly, é lá que quero morar.

É pra Itamaracá que eu volto quando a vida aperta, aprendi a viajar de olhos fechados enquanto o movimento da vida me faz descobrir também as montanhas.


Itamaracá é a "pedra que canta" e encanta.


Quero dedicar esse texto à minha tia Mirlane, que me lembrou que gosto de escrever, quem nos viu crescer em nossas múltiplas versões tem essa capacidade de nos lembrar de nós mesmos. Aweté Katu.


 
 
 

Comentários


Post: Blog2_Post

19996889959

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn

©2021 por "A vida de Júlia" porque nesse dia eu não tive criatividade. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page