Colonoscopia/ física/ felicidade e anti-aging
- Julia Costa

- 19 de abr. de 2023
- 3 min de leitura
Mais um dia de exames. Depois de uma noite mal dormida, estava meio cansada, mas animada em ter um dia bom.
Primeiro paciente faltou, ganhei uns minutinhos pra cochilar.
Segundo exame, me entra o Senhor paciente que pela identificação da guia tinha 70 anos mas aparentava uns 55, e não era de procedimento estético nem nada, nem sei explicar, acho que era a vitalidade mesmo. Tive que fazer uma observação a respeito porque me impressionou real, esses hábitos de vida de hoje deixam todo mundo com uns 10 anos a mais ou com a mesma idade só que com a cara toda esticada Rs Senhor paciente me respondeu prontamente: bom humor doutora, o segredo é bom humor.. e desde então começou a fazer uma piada atrás da outra, nessa hora chegou a anestesista e eu nem sei fiquei sabendo do desfecho da última gracinha porque Senhor paciente começou a dormir. Baita colonoscopia difícil, daquelas que a gente sai suada e se sentindo uma super heroína quando acaba, eu hein/ufa dever cumprido.
Quando fui liberar Senhor paciente da colono difícil pra ir pra casa ele estava com um barrigão duro, branco de dor, não menos piadista.. **nessas colonos difíceis as vezes a gente injeta muito ar no cólon e embora eu tenha aspirado uma parte, pelo visto ainda tinha restado um tantão*
Só sei que passaram umas horas entre dar Luftal, Buscopan, resolver passar o aparelho novamente para aspirar o ar derradeiro da barriga dele e seu fulano melhorar a dor, voltar a ter cor e continuar contando piada. E nessa conversamos bastante, teve tempo dele me contar que era físico, que a física explicava muita coisa a respeito da filosofia de vida sobre ser feliz, que ele queria escrever um livro sobre tudo que aprendeu, porque com o que ele sabia hoje nenhuma pessoa viveria de forma igual novamente, se recusariam a não levar uma vida de forma leve. Maior brisa né, eu tava no meu trabalho não numa mesa de bar com os amigos, olha os papos Rs Nessa que ele falou que queria escrever um livro comentei que escrevia uns poemas, abri meu celular no meu Instagram, que é onde publico algumas coisas, e deixei Senhor paciente da colono difícil lendo enquanto melhorava da dor e também pra que eu conseguisse dar uma andada na minha agenda de exames que já ia pra 1 h de atraso pelas intercorrências. Quando voltei pra o liberar, ele estava lendo em voz alta pra esposa uns trechos que tinha gostado, bem empolgado, achei bem da hora e fiquei feliz de ter tido a ideia de mostrar pra ele. Ele me falou algumas coisas a respeito do que eu tinha escrito, de uma poema meu sobre "o verbo" que se não me engano fala sobre "movimento" e que apesar de ter gostado do meu ponto de vista eu deveria olhar com mais carinho pra essa palavra e escrever algo da relação do "verbo" com o divino e com o criar.. agradeci a observação e me comprometi com a tarefa de escrever algo em breve.
Senhor paciente se levantou então pra finalmente, de colono feita, sem dor, com cor e poema lido ir embora.
Na despedida ele quis me contar mais sobre as ideias dele, resolvi desencanar do atraso e escutar, com a mesma presença que vi ele dando aos meu poemas. Me falou sobre conceitos de física, movimento, de como as coisas eram relativas, de que vivíamos no passado porque até uma onda até se propagar aos nossos olhos o momento já tinha deixado de existir, dentre tantas outras coisas que eu nem sei reproduzir. Já vendo que estavam me abordando pra voltar pros exames, ele disse que queria só concluir, e me disse: Você sabe que o único lugar que o amor existe é dentro da gente? Não tem como se esvaziar do amor. Quando você resolve estar com uma outra pessoa você faz esse seu amor emitir notas, a outra pessoa também emite notas e vocês tocam uma música, uma linda melodia. Mas o amor, ele só vive dentro de você.
No começo fiquei chateada com a intercorrência e com o atraso. Mas agora que tô indo dormir parei pra pensar que foi um dos encontros mais legais do meu dia. Faz tanto tempo que não relato nada do meu dia a dia, mas só de lembrar de hoje cedo o meu cansaço já passa e me motivo a vir compartilhar aqui, deve ter alguma explicação física. Acho que é assim que senhor paciente se sente aos 70 anos e animado pra escrever um livro que conte sobre sua filosofia física da felicidade.
Acho sempre empolgante ver como a vida flui quando a gente se permite ser rio e não se apega no lado ruim da experiência. Quanta gente legal tem aí pelo mundo. A vida é a arte do encontro, das sincronicidades na presença.


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