top of page

Cuidados Paliativos

  • Foto do escritor: Julia Costa
    Julia Costa
  • 8 de out. de 2021
  • 4 min de leitura

Na colação de grau, todo médico levanta o braço direito e fala em voz alta o famoso juramento de Hipócrates: "Curar algumas vezes, aliviar quase sempre, consolar sempre".

Pra quem não se deu conta ao ler essa frase desatento, ela é composta de 3 orações, em que apenas uma diz respeito à cura, todo o resto é Cuidados Paliativos (CP). E se olharmos com olhos ainda mais atentos, a cura só é possível algumas vezes, aliviar e consolar é sempre possível, ou quase sempre. Mesmo com todo esse peso, não é difícil a gente ver por ai esse tema ainda sendo tratado como tabu ou com menosprezo.


Eu to aqui morta em cima do sofá, achando que talvez eu merecesse cuidados paliativos hoje porque não tem mais cura pra esse resto de gente depois de um dia fazendo exames de urgência, mas eu vim aqui rapidinho falar sobre CP pra me consolar dessa avalanche que ocorre no nosso país, com todas essas baboseiras que falam por ai sobre o tema, que teve o estopim na CPI da Covid. Porque de alguma forma a minha vida é muito interligada a essa especialidade linda: minha tia Mirlane foi a pioneira em levar os CP pra Manaus, foi quem fez questão de me envolver em projetos durante a faculdade nessa área e quem me ensinou e me ensina tudo que eu sei sobre CP; minha melhor amiga, Anne, também é paliativista e sempre tem uma história inspiradora pra me contar.


Amanhã, dia 09/10/2021, é o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos e o tema esse ano é "Não deixe ninguém para trás". Hoje minha missão é não deixar os CP pra trás e abrir o coração de vocês pra eles.


CP em resumo é aliviar o sofrimento doenças que ameaçam a continuidade da vida, independente da idade ou da doença. Vai desde saberes técnicos avançados: lidar com sintomas como dispneia (falta de ar), delirium (confusão mental), dor; até um olhar ou escuta de acolhimento a alguém que te procura pedindo ajuda, ou que silencia por ajuda, devido a uma doença que lhe disseram "terminal" ou "sem cura". E por esses, sempre há o que fazer.


Curar é bom, traz alegria, satisfaz o ego de dominar todas as teorias e técnicas. Aliviar é calmaria, é o ser humano no seu maior potencial de se compadecer e "ser" humano.


Vou relatar aqui um exemplo breve de uma paciente que marcou muito na minha enfermaria da Gastro, que colocamos em prática nossos conhecimentos de CP. Dona Maria tinha cirrose e um câncer de fígado fora de possibilidade de tratamento curativo, internou na enfermaria após um episódio de sangramento do tumor para dentro da cavidade abdominal e nisso ficou quase 2 meses internada. Ela foi para cirurgia de urgência e teve que passar um dreno no abdome e um no tórax por conta desse sangramento, e mesmo após o sangramento resolvido não conseguimos sacar os drenos pois estes pacientes com cirrose acabam acumulando muito líquido nessas cavidades por conta da rigidez do fígado, isso inviabilizava sacar os drenos e dar a alta à Dona Maria, segundo protocolos tradicionais. Um belo dia Dona Maria me falou na avaliação rotineira da manhã que sentia saudades de casa e que queria muito conseguir voltar pra casa pra se despedir dos conhecidos, no hospital não conseguia receber muitas visitas, e sabia que não ia viver muito. Nesse mesmo dia fizemos um plano pra mandar Dona Maria pra casa nas melhores condições possíveis, pedimos alguns dias para colocar o plano em prática, e nesse tempo orientamos os familiares sobre como deveriam ser esses próximos passos do processo da doença, como lidar com os sintomas, medicações para trazer alivio e nos deixamos a disposição para cuidar dela novamente no hospital caso não estivessem lidando bem com a situação em casa, principalmente quando entrasse em processo ativo de óbito. Com todas as orientações, lá se foi Dona Maria, feliz da vida, após meses de internação, tinha feito casa e família pelo nosso hospital também. Deixamos um "retorno de segurança" para a vermos em 2 semanas no nosso ambulatório, mas sabíamos que talvez não nos encontrássemos mais. Para nossa surpresa, em 2 semanas, lá estava Dona Maria nos visitando, a filha disse que ela fez questão de ir no salão no dia anterior, pois não queria ver os doutores dela com qualquer cara, fez escova, pintou as unhas, colocou batom, vestiu seu melhor sorriso e deu uma alegria danada pra gente, foi a maior festa. Demos novas orientações e marcamos retorno em 2 semanas, dessa vez Dona Maria não compareceu, a filha também não nos procurou, acreditamos que a partida deve ter sido em paz, morrer em casa e confortável é privilégio de poucos, Deus a tenha. Toda vez que a gente cuida de alguém que parte, tenho certeza que a gente ganha um anjo no céu. Essa história em especial eu vou dedicar aos meus companheiros de residência: o Fer, a Fla e o Gui, que viveram tantos apertos e alegrias como essa ao meu lado e ao lado dos nossos cirrotiquinhos.

De "macabro"mesmo, só o desserviço dos nossos governantes com o trabalho sério do movimento paliativista. "A morte é um dia que vale à pena viver" Ana Paula Quintana Arantes.



 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Sonhos de criança

Nesses últimos dias, meus pais foram visitar Itamaracá, a cidade onde veraneei meus janeiros desde que nasci. Meus dias, por esse contato com eles, foi tomado de maresia, saudades e boas lembranças.

 
 
 

Comentários


Post: Blog2_Post

19996889959

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn

©2021 por "A vida de Júlia" porque nesse dia eu não tive criatividade. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page