Encontros de elevador
- Julia Costa

- 4 de out. de 2021
- 2 min de leitura
Fazia um tempo que eu não esbarrava com um pequeno no elevador, voltei a tombar com eles com a retomada das aulas nas escolas, nossos horários de saída e chegada em casa são parecidos.
O síndico do meu condomínio faleceu recentemente, mais uma vítima da Covid-19, deixou a esposa e um filho adotivo que pelas minhas contas deve ter uns 5 anos. O menino usa óculos fundo de garrafa, já pediu pra trocar pelos meus antes da pandemia, mas viu que não resolvia a demanda dele e logo destrocou, muito esperto, ele é uma graça.
Tem vizinho que a gente nunca viu e nem vai ver na vida, mas tem vizinho que parece que tem hora marcada com a gente no elevador, e eles são desses com quem tenho encontros do destino.
Depois do óbito do síndico, eles passaram a só pegar o elevador sozinhos, mantém uma certa distância na garagem e ela sempre me fala com uma voz baixa que eu posso subir ou descer que ela vai no próximo.. Ainda que eu me ofereça pra ir depois, ela insiste que eu vá, fala sem olhar nos meus olhos. Eu vou, meu sentimento é que o menor tempo de contato com outras pessoas pra ela é urgente, grita com silêncio que eu desapareça logo, nunca mais consegui puxar assunto ou dar meus sentimentos a eles desde então.
Hoje foi o primeiro dia que eles entraram comigo no elevador, o garotinho estava com um iPad na mão, jogando um jogo de corrida de carros. Ninguém falou nada durante a descida, eu estava muito surpresa dela ter entrado no elevador em companhia outra vez, não tive coragem de falar nada além do bom dia, queria ficar no meu canto, me passar o mais despercebida e incômoda possível, fiquei meio tensa, acho que só respirei no térreo. Quando a porta do elevador abriu o garotinho puxou a blusa da mãe, pediu pra ela abaixar e falou no ouvido dela, aquele sussuro de criança que não sabe sussurar e sai quase um grito, não tive como não ouvir: "Você não pode mesmo ir pra escola comigo? Eu não gosto quando você me deixa". Ela engoliu a saliva, foi alto como o sussuro do menino. Eles saíram do elevador e foram conversando em direção ao carro, não consegui mais acompanhar a conversa.
Perder o pai duas vezes com 5 anos é pros guerreiros.
Ser pai e mãe de uma criança enlutada é resistência.
Força e conforto pro coração de vocês.



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