Se não fosse o forró
- Julia Costa

- 3 de out. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 4 de nov. de 2021
Como disse Tom Jobim, "Se eu fosse editor, ia buscar coisas no Nordeste, as coisas mais geniais do mundo estão lá." Quem inventou o forró é genial, é nordestino e mora no meu coração.
Posso citar algumas das ocasiões a que ele me remete, memórias afetivas regadas à música não me faltam: as rodas de serestas nos veraneios em Itamaracá-PE, as idas ao colégio ouvindo no som do carro, as histórias do sertão e das festas juninas do interior que ouvi da boca dos mais velhos da família ou os domingos em casa enquanto esperávamos a comida ficar pronta e a música rolava solta.
Minha introdução ao forró foi ainda na infância ouvindo Gonzaga, que privilégio começar logo assim pelo Rei do baião. No livro "O fole roncou" li uma comparação que achei muito interessante: "Como compositor Gonzaga está para o sertão assim como Noel Rosa está para o centro urbano e Caymmi para o litoral". Então pra quem não conhece a grandeza de Gonzaga, mas sabe da soberania de Caymmi ao falar do mar, segue um bom esclarecimento.
Meu pai adorava cantar Gonzaga e do tanto que ouvi, consigo puxar na memória várias imagens dele cantando: "Toda menina que enjôa da boneca é siná que o amor já
chegou no coração. Meia comprida, não quer mais sapato baixo, vestido bem cintado, não quer mais vestir gibão. Ela só quer. Só pensa em namorar".
Não sei o por quê dele ter encasquetado tanto com essa música, e cantado no repeat por tanto tempo, o fato é que de tanto ouvir da menina rebelde que só queria namorar, nunca fui de muitos namoradinhos, acho que a lavagem cerebral do papai deu certo.
O forró passou um tempo sumido da minha vida, ouvia eventualmente em umas playlists randômicas. Eis que vim fazer residência em Campinas e uma bela surpresa me reaproximou do forró.
Tive um match de aplicativo com uma vocalista de uma banda de forró, o encontro foi de-sas-tro-so, mas me rendeu uma reconexão com o forró e uma bela amizade. No final das contas, o saldo foi super positivo.
Fui introduzida no circuito do forró pé de serra do sudeste, são inúmeras as bandas locais de qualidade (Forró Maria Lua, Trio Dona Zefa, Dois dobrado, Forró di Casa, Duka Santos, etc), as casas de shows (Campinas: Brasuca, Escuta o Cheiro, Goma, etc / SP: Canto da Ema, Locomotiva, Remelexo, etc), inúmeros os festivais (Itaúnas, Nata Forrozeira, Forró dos Sonhos etc), é um mundo.. É forró feito por paulista, mas com alma nordestina.
Sempre dancei o forró dois pra lá dois pra cá e é uma delícia, mas aqui o povo gira um tanto e é lindo e dinâmico, não tinha como ficar no meu dois pra lá, dois pra cá. Quando vi já estava matriculada em aula de dança, colocando os passos em prática de segunda a segunda nos bailes (sim, no pré pandemia rolava forró todo santo dia pra quem estava no gás). Todo forrozeiro já passou por essa fase de lua de mel com o forró, é apaixonante o despertar que ele te causa, o povo até brinca: "Virgi mais uma que o bicho do forró picou", você só quer dançar, dançar, dançar. Ainda não me tornei nenhuma bailarina profissional, mas só de conseguir acompanhar a condução das pessoas com quem danço já fico numa felicidade danada.
Dançar forró é meditação, é presença. Pra quem diz que não consegue meditar porque os pensamentos não param, eu indico dançar forró. E digo mais, é tão terapêutico quanto! Se você não está com a cabeça ali o passo não sai, o corpo não cola, o sentimento não flui. Dançar forró é fechar os olhos, esquecer dos problemas e se deixar flutuar.
Eu logo fui atrás de toda discografia, não tem coisa melhor do que você dançar uma música que conhece a letra e poder cantar junto. Conheci a potência das vozes femininas no forró e logo me identifiquei com as mensagens que elas passavam. Dentre as que mais gosto estão: Marinês, Marinalva, Anastácia, Carmélia Alves, Elba, Mariana Aydar. Como não citar também minhas grandes amigas de Campinas: Lis Ferraz e Mariana Vasconcelos.
Não tem acolhimento igual ao do forrozeiro. É um povo caloroso, simples, feliz, apaixonado pelo forró e pela vida. Eu comecei a frequentar o forró em carreira solo pelas noites, sem companhia de amigos. Hoje o negócio deu um 360, quando entro no forró conheço quase todos, só gente querida, de energia boa. Eu nunca presenciei uma briga ou picuinha. As conversas com os caras malas também são bem menos frequentes do acontecia comigo nos sertanejos da vida na juventude, por exemplo. Não tem preconceito, homem conduz, mulher conduz. A regra é se divertir.
A vida me levou pro forró e agora ele que me aguente.. Porque meu pulmão respira como um fole, meu coração bate zabumba e assim eu vou seguindo, movida por forró, porque a gasolina tá cara demais, o forró já me pertence.
Vida boa danada - Trio Dona Zefa
Se não fosse o forró
O que seria de mim, Deus meu
O que seria de mim, Deus meu
O que seria de mim
É lá que a gente se encontra
Eu e meu amor
Quando estou triste, pra baixo
É pra lá que eu vou
O forró é minha vida
É lá que me sinto bem
Tem tanta gente querida
Que lugar melhor não tem
Se não fosse o forró
O que seria de mim, Deus meu
O que seria de mim, Deus meu
O que seria de mim
E quando o dia amanhece
Volto pra casa com meu bem
Ela me dá um beijinho
Beijo que só ela tem
Que vida boa danada
Desse jeito vou até o fim
Cantando e dançando forró
Vou levando a vida assim
E quando o dia amanhece
Volto pra casa com meu bem
Ela me dá um beijinho
Beijo que só ela tem
Que vida boa danada
Desse jeito vou até o fim
Cantando e dançando forró
Vou levando a vida assim
Se não fosse o forró
O que seria de mim, Deus meu
O que seria de mim, Deus meu
O que seria de mim

foto: @senaofosseoforro


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