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Um brigadeiro pra Carol

  • Foto do escritor: Julia Costa
    Julia Costa
  • 25 de fev. de 2023
  • 4 min de leitura

No final de semana a Carol me emprestou um livro de receitas da Bela Gil, que é minha musa n1, e eu esqueci na casa dela, o recado pra mim mesma do meu esquecimento não poderia ser mais claro, recalquei a preguiça de cozinhar, que é constante na minha vida. Conhecida dessa minha mente que sou, fiquei com aquilo na cabeça: preciso cozinhar mais. 

Mas aí veio a semana e tudo correu como o de costume, cozinhei só meu almoço mesmo que é o que sempre faço. Na janta junto um negócio daqui, outro dali, e quando vejo já tô jantada, a janta que me come não sou nem eu que como a janta.

Na sexta eu tive o dia livre e pensei:  vou no mercado pra comprar os ingredientes daquele brigadeiro que vi no livro da Bela Gil pra fazer pra Carol no final de semana, a receita só tem 3 ou 4 ingredientes, achei que dava pra bancar com o meu baixo QI de cozinha e de quebra ainda ganhar umas estrelinhas.

Um dos ingredientes era castanha de caju crua, mas no mercado só tinha castanha de caju torrada. Tá vendo mundo, a pobre velha ser humana cheia das boas intenções, receita de 3 ingredientes e o primeiro já me boicota, é brincadeira. Mas tudo bem, ao invés de falar: eu tentei e desistir, mandei mensagem pra Carol e ela me passou uma receita alternativa com farinha de banana verde, tinha no mercado, ufa. Fomos pra casa: eu, o chocolate, a farinha de banana verde, vários ingredientes que juntos prometiam muitas coisas, inclusive um brigadeiro. 


No sábado a Carol vinha pra cá de tarde, fui pedalar cedo e chegando em casa, no pico da endorfina circulando nesse corpinho, decidi que era a hora de fazer o brigadeiro. 

Peguei todos os ingredientes e deixei bem pertinho de mim pra não dar nada errado.

Comecei colocando uma panela em cima da outra no banho maria pra derreter o chocolate, só que a panela pequena tinha cabo e ficou meio guenza, pendente, parecia mais que ela tinha pegado uma queda e caído em cima da outra e tava toda torta da queda, do que um verdadeiro banho Maria, mas continuei porque o importante é ficar gostoso e não que as panelas fiquem bonitas no tal do banho Maria, porque se fosse pra ficarem bonitas deveria ter um nome mais sugestivo: banho das Deusas, banho de Afrodite, banho das Flores, sei lá, nada contra a Maria, até me perdi que tava na receita. Continuando, tudo certo com o chocolate derretendo, coisa mais linda, aquele cheiro subindo, uma delícia. O segundo passo era jogar a farinha de banana verde, peguei e virei a vasilha toda, logo vi que era muita coisa seca pra pouca coisa molhada e que talvez a minha receita tivesse ido por água a baixo, fiquei meio desesperada e tava com os dedos todos sujos dificultando destravar a benção da tela do celular pra ver o que tinha feito de errado, quando finalmente consegui destravar, li e entendi, na próxima linha da receita tinha escrito: jogar a farinha aos poucos para homogeneizar e não empelotar, pois pronto, caguei o negócio. Mas a bendita da receita não tinha nenhum SOS pra se a pessoa fizesse errado? Ninguém faz errado nunca será? Fiquei logo decepcionada com a falta de informações salvadoras para cozinheiros de primeira viagem daquele autor. Olhei pro que eu tinha na cozinha e parece que Deus mandou um raio dourado em cima da pasta de amendoim, e meu caminho se abriu até ela como se fosse Moisés indo pelo Mar Vermelho, peguei a pasta de amendoim e joguei na panela, assim bem sem quantidade mesmo, parecendo bombeiro apagando um fogo, evitando uma calamidade que era meu brigadeiro virar pelote, graças a Deus, deu tudo certo, até peguei um banco e sentei depois, mas bem pouquinho, porque a receita tinha que seguir né. Misturei tudo bem misturadinho, até ficar sem pelotes, acrescentei ainda as tâmaras, que benza Deus, deu maior trabalho de triturar porque primeiro que eu não tenho triturador e segundo que elas começam a bater dentro do liquidificador e ficam pregadas nas paredes como se soubessem que a hélice do negócio vai acabar com a vida delas.. e é isso. Meu brigadeiro tava pronto, olhei meu celular rapidinho pra ver se a receita sugeria algo, ela dizia: deixar esfriar e enrolar, só por Cristo, ainda ter que esperar mais, eu agitada do jeito que tava, decidi que ia enrolar quente mesmo. Coloquei 3 pratos fundos, um com coco, outro com cacau, outro com tâmara e aí pronto parecia um playground, foi bem divertido e no final eles ficaram lindos, parecendo brigadeiro de confeitaria mesmo, coisa chic (Figura 1).


Figura 1. Os tais brigadeiros no tronquinho com umas flores do meu jardim pra ficarem ainda mais bonitos pro storie.



Mandei um áudio pra Carol, dizendo que ela não ia acreditar que eu era a autora daqueles brigadeiros. Ela me respondeu um: "- Aí nega", já percebi que não tava tudo bem. E logo veio, "-testei positivo pra Covid".

Comi logo um brigadeiro porque fiquei nervosa que não sabia o que falar. Estar doente é uma coisa tão subjetiva, que você não sabe se a pessoa tá se vendo como alguém na beira da morte ou tá levando de boa como se fosse só mais um dia a superar. Enfim, na dúvida do que fazer, cheia de brigadeiro na mão, me ofereci pra deixar uns na casa dela, ela não respondeu. 

Depois a gente se ligou de vídeo, tentei mostrar os brigadeiros e a ligação caiu, depois de ligação normal a chamada cortou na hora que contei dos brigadeiros, enfim, tô aqui escrevendo esse texto pra finalmente conseguir falar pra ela a história dos brigadeiros, e dizer que o mundo sempre quer nos mostrar algo além quando aparece alguma dificuldade ou as coisas saem fora do planejado. O importante é continuar fazendo brigadeiros, seja com foto da receita, trocando castanha de caju por farinha de banana verde, com covid ou sem, na mesma casa ou separadas, as circunstâncias são o de menos se a gente confia que a gente vai sempre conseguir chegar nos brigadeiros, mesmo que a gente não saiba o que fazer com eles quando eles ficam prontos.


 
 
 

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